A mordida é um comportamento típico de crianças e bebês até os dois anos ou um pouco mais.

Neste período os bebês e crianças exploram o mundo através da boca, afinal tudo é muito novo: tamanhos, formas, cores, textura e gosto, e chamamos este momento de fase oral.

Segundo Cisele Ortiz, psicóloga e coordenadora do Instituto Avisa Lá “Morder é a forma de contato sensorial com o desconhecido e a comunicação corporal que as crianças possuem numa determinada fase do desenvolvimento”

 

Por que as crianças mordem?


 

Além de explorar objetos através da boca e da mordida, as crianças podem morder umas as outras, nesta situação ela poderá perceber a reação da criança que foi mordida: susto, choro, gritos, espanto, e isso poderá ser muito interessante para ela.

Outros motivos que poderão levar a ocorrência de mordidas entre crianças:

  • Aliviar a dor durante a erupção dentária
  • Explorar a causa e efeito “o que acontece quando eu mordo?”
  • Experimentar a sensação de morder
  • Satisfazer a necessidade de estimulação motor-oral
  • Imitar outras crianças e adultos
  • Chamar a atenção
  • Agir em legítima defesa
  • Comunicar suas necessidades e desejos, como fome ou cansaço
  • Expressar sentimentos difíceis como: frustração, raiva, confusão ou medo, pois ainda não possui habilidades linguísticas para expressar seus sentimentos

A medida em que a criança desenvolve sua comunicação como a fala, e consegue expressar-se, a mordida tende a desaparecer.


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14 estratégias para lidar com as mordidas


 

1 – Não Rotule a criança que mordeu:

Ressalta-se a importância de não “rotular” a criança que mordeu como “mordedor”, pois isso irá intensificar o comportamento, uma vez que a criança tende a assumir a identidade que lhe é atribuída.

Nesta situação, a melhor ação é compreender o contexto em que a mordida ocorreu, especialmente em ambientes coletivos como escolas e espaços de recreação.

Para Cisele, a situações de mordida devem ser mediadas de acordo com a faixa etária: “Se a criança tem entre um e dois anos e ainda usa mais a linguagem corporal do que verbal, o adulto pode emprestar uma linguagem para evidenciar o que aconteceu. E ela começa a estabelecer uma relação de causa e efeito. Em se tratando de crianças maiores de dois anos que continuam mordendo forte, a ideia é apontar outros caminhos de expressão, já que ela possui outras habilidades.”

2 – Faça alguns questionamentos para compreender o contexto da mordida:

  • Qual a idade da criança?
  • Onde ocorreu a mordida (ambiente)?
  • Em que horário ocorreu?
  • Em qual contexto ocorreu a mordida?
  • Havia brinquedos disponíveis?
  • Foi durante uma atividade ou a criança estava ociosa?
  • É a primeira vez ou recorrente?
  • A criança já fala e mesmo assim mordeu?
  • A mordida ocorreu com a mesma criança ou crianças diferentes?

3 – Comunique-se em tom calmo e firme com a criança que mordeu:

Faça uma afirmação firme e clara: “sem morder”, “morder dói”, “não morder”. Em seguida desvie a atenção para a criança que foi mordida e demonstre preocupação e simpatia.

Estas ações também ensinam empatia e reforçam que morder não resultará em maior atenção.

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4 – Ajude a criança a expressar-se:

Se a mordida ocorreu por falta de habilidade e recursos de comunicação para expressar suas necessidades e sentimentos, então ofereça a criança opões para ajudá-la a se comunicar.

Para uma crianças irritada, pode-se utilizar “você está nervosa?”, “Você está brava?” e em seguida ofereça uma opção: “vamos rasgar algumas revistas”, “vamos tocar o tambor?”, “vamos fazer uma cara de leão bem zangado?”.

Atividades intensas podem contribuir com a expressão dos sentimentos, quando a criança aceitar faze-las, demonstre compreender que ela apresenta irritação. Isso irá reforçar que está forma de expressar-se é compreendida e muito melhor que a mordida.

Para crianças que já utilizam palavras para se comunicar, reforce ações positivas: Você pediu o brinquedo ao seu amigo ao invés de arrancá-lo (ou morder), Muito Bem!

5 – Ofereça escolhas para a criança:

Ofereça opões adequadas à faixa etária e questione “o que você gostaria de fazer?”, “vamos brincar de massinha?”, “o que você quer tocar?”, “vamos brincar na água?”, “quer tirar o sapato ou colocar?”.

6 – Ajude a estimulação oral com recursos apropriados:

Se a mordida está relacionada a necessidade de estimulação oral ou dentição ofereça um mordedor.

Outro recurso para estimulação oral são lanches saudáveis em intervalos regulares ao longo do dia: alimentos crocantes como cereais ou legumes cortados em formato de palito, além de frutas firmes também cortadas poderá ajudar.

7 – Perceba o cansaço e sono:

As mordidas poderão ocorrer quando a criança está cansada ou com período de sono insuficientes.

Nestas situações é recomendado investigar como ocorre o sono e descanso na rotina domiciliar, e propor que a criança durma uma hora mais cedo. Essa rotina pode ser iniciada de forma gradual, por exemplo: no primeiro dia a criança dormirá 15 minutos mais cedo, no segundo dia 20 minutos e assim sucessivamente.

No ambiente escolar ou de recreação, é importante o planejar momentos para soneca e atividades mais calmas para um descanso como livros ou música mais calma.

8 – Proporcione atividades mais energéticas:

Algumas crianças necessitam de atividades que utilizem o corpo e sejam mais ativas. Se não realizarem esse tipo de atividade poderão morder, por isso é importante perceber em qual circunstância a mordida ocorreu.

Ofereça atividades ao ar livre, que envolvam expressão corporal como dança e música.

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9 – Ofereça atividades ao ar livre e natureza:

As crianças necessitam de variação dos ambientes, por isso ofereça atividades em ambientes externos sempre que possível.

Outra prática importante é o contato com a natureza: manipular a terra e plantas, caminhar pela grama entre outras.

Inúmeros estudos demonstram os benefícios que a natureza pode proporcionar ao desenvolvimento infantil nos aspectos intelectual, emocional, espiritual, social e físico.

Uma folha pode virar um barquinho, o galho pode virar uma espada, e neste ambiente natural as brincadeiras se tornam mais criativas e cooperativas.

“Criar crianças em contato com a natureza é uma uma questão, também, de manutenção do futuro do planeta. A criança que convive com o meio natural e desenvolve afinidade em relação à natureza aprecia e zela pelo mundo à sua volta porque o respeita e o reconhece como seu ambiente de pertencimento” descreve Camila Hungria do Portal Lunetas.

10 – Planeje atividades e desafios que a criança gosta:

Observe o comportamento da criança, é possível que não ocorra mordidas quando ela está focada em atividades que gosta. Por isso procure planejar, ao menos uma vez ao dia, atividades que a criança goste de realizar e não apresente o comportamento de morder.

11 – Ofereça apoio e conforto:

Quando a criança não está em seu ambiente domiciliar poderá sentir-se insegura, por este motivo é importante envolver a família e solicitar o envio de um objeto que traga a memória de sua casa.

Por exemplo uma fralda, um cobertor ou outro objeto que possa confortá-la nos momentos de estresse, pois será sua referência a segurança de casa.

12 – Esteja atento ao excesso de estímulos:

Há crianças sensíveis a ambientes muito agitados e respondem com mordidas como excesso de luzes, som alto, agitação das pessoas no ambiente, luzes piscantes, entre outras.

Quando a proposta for mais agitada, e possível procurar um espaço mais tranquilo (ou construí-lo), para aquelas crianças mais sensíveis, por exemplo um cantinho com livros, jogos de montar, lápis e desenhos para pintar, música mais baixa, como uma opção de escolha para essas crianças.

13 – Facilite o compartilhamento entre as crianças:

As mordidas poderão ocorrer quando a crianças não possui habilidades para se comunicar ou o número de brinquedos é insuficientes para todas as crianças no mesmo ambiente.

Nestas situações é necessária a intervenção de um adulto para propor o compartilhamento e como ele pode acontecer.

Uma opção prática é utilizar uma música como tempo de duração da brincadeira, ao final da música troca-se o brinquedo.

14 – Saiba como prestar atendimento a uma criança que recebeu mordida:

Além de acolher a criança que foi mordida algumas estratégias precisam ser aplicadas para diminuir o desconforto no local:

  • Lavar a região com água e sabão sem esfregar a área mordida (essa prática irá piorar o processo inflamatório instalado).
  • Colocar a crianças em posição confortável com local da mordida apoiado.
  • Aplicar uma compressa com gelo (sempre com proteção entre o gelo e a pele) pelo tempo que a criança permitir, movimentando a compressa de tempos em tempos (isso ajudará a diminuir a dor e inflamação no local).
  • Após a aplicação da compressa de gelo, proceder com a aplicação de compressa de camomila: preparar o chá (com sache ou “in natura”) e aplicar “frio” com apoio de um pano ou compressa multiuso (tipo perfex), pelo tempo que a criança permitir. A camomila possui propriedades anti-inflamatórias e ajudará na redução do inchaço, dor e hematoma no local.

Confira um vídeo com o passo-a-passo para o atendimento após a ocorrência de uma mordida:

Faça download gratuito de um modelo de protocolo para atendimento às mordidas entre crianças, acesse aqui

Letícia Spina Tapia

Enfermeira e Fisioterapeuta, Mestre no Ensino em Ciências da Saúde, Responsável Nacional pelo Programa Escola Segura

Artigo publicado em: 27 de março de 2015

Artigo atualizado em: 03 de novembro de 2019

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Referências: