As creches e pré-escolas são ambientes propícios para construção de hábitos saudáveis, pois atendem crianças em uma faixa etária onde as práticas de cuidados de si e do outro estão em desenvolvimento.

O cuidar de si e do outro é tanto uma responsabilidade da escola como da família, tendo como propósito o bem-estar, saúde e conforto da criança.

Portanto é preciso haver diálogo entre família e escola para que partilhem sobre os cuidados e ensinem estes às crianças.

Da mesma forma, é importante conhecer as características da idade da criança, o que demandará um grau de dependência maior ou menor do profissional, com vistas a garantir sua proteção e conforto, e isso exigirá do profissional sensibilidade e habilidade para que sejam facilitadores de vivência diárias que estimulem e promovam o seu autocuidado.

Protocolo e humanização do cuidado

Pensando na escola como um espaço coletivo, de educar e cuidar, alguns cuidados necessitam de protocolos para garantir a prevenção de doenças e eficiência do procedimento.

A troca da fralda, pode ser um contexto educativo privilegiado, com interações calorosas que expandem as experiências da criança, promovem o desenvolvimento, reforçam laços afetivos e contribuem para a segurança e o bem-estar. Um dos raros momentos de interação entre o/a adulto/a e uma única criança e, portanto, um dos poucos momentos de atenção exclusiva, de proximidade e de reciprocidade.

Além disso devemos refletir sobre a importância das interações durante as rotinas de cuidados pessoais, como a troca de fraldas. Ao contrário do que se pode pensar, trocar as fraldas em uma escola é um cuidado altamente exigente, o qual implica em procedimentos antes, durante e após a mudança da fralda.

Embora o protocolo seja importante, o cuidado humanizado, o toque respeitoso ao corpo da criança, o papel pedagógico do cuidado, nomear as partes tocadas, pedir licença para tocar o corpo e tantas outras práticas devem permanecer sempre!

o propósito desta matéria é apresentar algumas informações importantes sobre o momento da troca de fraldas, lembrar sempre que é um cuidado pessoal e um momento educativo privilegiado e assim oferecer aos profissionais interessados um modelo de protocolo, com base nos achados da literatura para que possam levar até o ambiente escolar e propor discussão sobre o assunto.

1° passo: iniciar a interação durante a troca de fraldas

O olhar, a conversa e a proximidade física são elementos importantes – como a criança é o centro da atenção do/a profissional, a interação é didática e o diálogo é individualizado, sendo mais fácil seguir as iniciativas da criança para comunicar, expandindo-as e utilizando linguagem rica e variada.

Como deve ser o ambiente para troca de fraldas?

Segundo as recomendações da Anvisa, o ambiente de troca de fraldas deve dispor de:

  • Bancada alta para troca de fraldas.
  • Papel toalha para forrar a bancada.
  • Lixeira ao lado do trocador forrada com saco plástico, com tampa e acionamento por pedais.
  • Pias próximas a região troca de fralda com sabão líquido e papel toalha (para higienização das mãos).
  • Rotina padronizada de troca de fraldas deverá ser escrita e fixada no local próximo a troca de fraldas.
  • Fraldas descartáveis devem ser depositadas em recipientes exclusivos, com identificação e separadas do restante do lixo.
  • Retirada do lixo com fraldas antes que fique cheio, para evitar mal cheiro e para que possa ser fechado e transportado com facilidade e segurança até a área externa de lixo.
  • Recipiente de lixo lavado com água e detergente antes de ser colocado um saco limpo.

Como deve ser a limpeza da superfície da bancada de troca de fraldas/trocador?

É preciso compreender que a maior parte dos germicidas (como álcool 70%, hipoclorito, etc) são inativados na presença de matéria orgânica (urina, fezes e sangue por exemplo), por isso não é recomendado aplicar apenas álcool 70% na bancada de troca de fraldas na presença de urina e fezes, é preciso realizar a limpeza com água e sabão antes.

Como realizar a limpeza da bancada ou trocador de fraldas?

  • Na presença de matéria orgânica (urina/fezes), aplicar água e sabão (que poderá ser armazenado em um borrifador) e remover com papel toalha.
  • Borrifar álcool 70% três vezes e passar o papel toalha em sentido único por toda a bancada.
  • Se não tiver a presença de matéria orgânica na bancada, o que pode ser evitado com a forração adequada a cada troca, borrifar o álcool 70% três vezes e passar papel toalha em sentido único por toda a superfície.

Assadura ou dermatite de fralda? Confira as recomendações para o cuidado: acesse aqui

Devem ser utilizadas luvas para troca de fraldas?

Existem inúmeros estudos que descrevem a necessidade da higienização adequada das mãos, mas que luvas não precisam ser utilizadas para procedimentos de rotina como a troca de fralda que ocorre em unidades escolares.

Por isso a Academia Americana de Pediatria e a Canadian Pediatric Society recomendam fortemente uma higienização com qualidade das mãos a cada troca de fraldas e quando a luva for utilizada, deverá ser substituída a cada troca de fraldas e as mãos higienizadas logo após a retirada das luvas.

Quando as luvas são utilizadas de forma incorreta (não são substituídas a cada troca de fralda, as mãos não são higienizadas após a retirada das luvas, a colocação e retirada das luvas não é realizada de forma adequada), elas perdem o seu propósito de proteção e passam a favorecer a contaminação tanto do profissional que realiza a troca.

A troca de fraldas com uso de luvas é recomendada quando:

  • O profissional se sente desconfortável pelo possível contato com resíduos de fezes (o que pode ser evitado se for utilizada a técnica correta).
  • Crianças com diarreia.
  • Crianças com lesões da pele, como assaduras/dermatites.
  • Na presença de ferimentos com sangramento.
  • As mãos do profissional apresentam lesões.
  • Na vigência da pandemia de coronavírus, a maioria dos protocolos de reabertura escolar recomenda a utilização de luvas para o procedimento de troca de fraldas.

Recomendamos que a gestão escolar dialogue com os profissional responsáveis sobre este cuidado, os seus sentimentos, as dificuldades e as sensações deste processo de cuidar corporal, além das recomendações quanto ao uso de luva ou não, a técnica correta para troca da fralda, a colocação/retirada das luvas e higienização das mãos.

Mais importante ainda é a elaboração de um protocolo, descrevendo o passo-a-passo estipulado pela unidade escolar para que seja fixado no local destinado a este cuidado. Você poderá acessar um modelo aqui.

Essa medida favorece a realização de uma técnica mais alinhada entre a equipe, que respeite os princípios de higiene para evitar a contaminação e preserve a saúde e bem-estar da criança e dos responsáveis por este cuidado.

Modelo de Protocolo: acesse aqui

Utilizar lenço umedecido ou água e sabão para troca de fralda?

Os lenços umedecidos mais modernos são constituídos de um “não-tecido”, embebido em solução aquosa ou oleosa. Essas soluções normalmente são enriquecidas com emolientes, surfactantes e podem conter aditivos e fragrâncias.

Por possuírem uma base aquosa é utilizado um preservativo para evitar a contaminação bacteriana e fúngica do material.

Alguns estudos constataram que não houve alteração significativa da flora bacteriana periuretral (ao redor da uretra – canal por onde passa a urina) utilizando lenços umedecidos quando comparado à limpeza tradicional com água e sabão.

Segundo o Consenso de Cuidado com a Pele do Recém-nascido da Sociedade Brasileira de Pediatria (2015), os lenços umedecidos já foram relacionados com processos irritativos e alérgicos, mas a evolução na compreensão da fisiologia, microbiologia e imunologia da área das fraldas favoreceu o desenvolvimento de produtos cada vez mais adequados para crianças.

Sabe-se que os preservativos e fragrâncias utilizadas em lenços umedecidos podem estar relacionadas a reações alérgicas no local de sua utilização.

Como conclusão a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que a limpeza da área das fraldas pode ser feita com água e sabão, o que é orientado pela maioria dos pediatras, mas também com lenços umedecidos que utilizam tecnologia moderna (com menos produtos químicos, sem perfume, sem álcool ou ainda com Syndets).

Uso de creme barreira:

Após a higiene da pele é recomendada a sua secagem suave (sem esfregar). A aplicação de creme de barreira (como os cremes à base de óxido de zinco), promoverá a formação de uma película protetora que impedirá a ação das enzimas sobre a pele (contidas na urina e fezes), e limitará a fricção da área.

Também é orientado no Consenso de Cuidado com a Pele do Recém-nascido a utilização de creme de barreira para a prevenção da dermatite de fraldas, e não apenas quando houver sinais de irritação no local.

Já os cremes contendo medicamentos (nistatina, corticoides e anti-bacterianos), não devem ser usados de rotina, apenas quando houver evidência de infecção ou inflamação e com orientação médica.

Materiais necessários para realizar a troca de fralda:

  • Recipiente para descarte de fralda e lixo devem ser colocados próximo ao trocador
  • Sacos plásticos para roupas sujas
  • Roupas limpas (se necessário)
  • Fralda limpa
  • Material de higiene pessoa da criança (sabão líquido neutro ou lenços umedecidos, creme de barreira)
  • Toalha ou papel toalha
  • Água morna
  • Papel toalha e papel higiênico
  • Uso de luvas (se forem utilizadas)
  • Algodão (se for adotado pela escola)

Passo-a-passo para realizar a troca de fralda:

Lembrete importante: NUNCA deixar uma criança sem vigilância sobre o trocador, para isso providenciar todos os materiais ANTES de colocá-lo sob o trocador

  1. Lavar as mãos (confira a técnica recomendada pela Anvisa aqui)
  2. Forrar o trocador com a tolha da criança ou papel toalha.
  3. Se utilizar a toalha da criança, na região das fraldas, forrar com papel toalha para evitar que a toalha fique suja de resíduos de fezes ou urina.
  4. Explicar para criança o que será feito, e nomear as partes do corpo a medida que a manipula.
  5. Remover as roupas sujas.
  6. Abrir a fralda e remover o excesso de fezes com papel higiênico macio, lenço umedecido ou algodão úmido.
  7. Remover a fralda suja com cuidado para evitar que fezes e demais secreções respinguem ou contaminem o profissional e a bancada.
  8. Descartar a fralda no lixo acionado pelo pedal.
  9. Limpar a pele da região perianal utilizando lenço umedecido ou algodão com água morna. Realizar a limpeza sempre do sentido da genitália para o ânus, impedindo a contaminação do canal de urina pelas fezes.
  10. Realizar a limpeza das áreas de dobras, região do escroto e abaixo da pele que recobre o pênis (prepúcio) nos meninos. Trocar o lenço umedecido ou o algodão úmido a cada passada na pele da criança.
  11. Em caso de higiene com algodão úmido: a penúltima passada de algodão deverá conter água e sabonete líquido, aplicar em toda a genitália, virilha e ânus. Finalizar com algodão embebido em água morna para retirar os resíduos do sabonete.
  12. Secar bem as regiões de dobras e não friccionar a pele.
  13. Depositar os materiais utilizados para limpeza no lixo (inclusive o papel toalha utilizado como forro).
  14. Aplicar o creme de barreira.
  15. Colocar a fralda limpa e deixar em posicionada de forma confortável.
  16. Sempre lavar as mãos da criança após a troca das fraldas com água e sabão, essa medida simples é capaz de prevenir doenças, além de estimular a crianças (desde pequena) que é necessário higienizar as mãos neste momento.
  17. Colocar a criança em local seguro.
  18. Realizar a limpeza da superfície do trocador.
  19. Realizar a higienização das mãos.

Quer ficar atualizado sobre saúde e segurança na escola? Cadastre seu e-mail aqui

Confira um cartaz com o passo-a-passo para troca de fraldas:

Recomendado pela National Association for the Education of Young Children (NAEYC):

lze_large_2013_2_
lze_large_2013_3_
Passo a passo da troca de fraldas

Letícia Spina Tapia

Autora. Enfermeira e Fisioterapeuta, Mestre no Ensino em Ciências da Saúde, Responsável Nacional pelo Escola Segura.

Juliana Rentas

Revisora Técnica. Enfermeira, Pós-Graduada em Oncologia. Parceira Técnica e Facilitadora.

Artigo atualizado em: 15 de setembro de 2021

Artigo publicado em: 19 de setembro de 2016

Conheça nossa formação em Primeiros Socorros com foco no ambiente escolar: acesse aqui

Referências:

  1. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Diaper-Changing Steps for Childcare Settings. CDC, 2016.]
  2. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. When Diaper Rash Strikes. Healthy Children Magazine, 2015.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Consenso de cuidado com a pele do recém-nascido. [onlie], SBP, 2015.
  4. MOORE, D.; et al. Infection control in paediatric office settings. Paediatr Child Health. 2008 May; 13(5): 408–419.
  5. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Infection Prevention and Control in Pediatric Ambulatory Settings. Committee on Infectious Diseases, Pediatrics. September 2007, volume 120 / issue 3.
  6. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. When Diaper Rash Strikes. Healthy Children Magazine, Summer 2010.
  7. CANADIAN PAEDIATRIC SOCIETY. Reprinted from Well Beings: A Guide to Health in Child Care (3rd edition). May be reproduced for educational purposes, and for use in child care settings, 2008.
  8. PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Orientações para profissionais da educação infantil, Gerência de Educação Infantil (RJ), 2010.
  9. WONG. Fundamento de Enfermagem Pediátrica, Marilyn J. Hockenberry; David Wilson, 9. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.
  10. SECRETÁRIA MUNICIPAL DA PREFEITURA DE DIADEMA. O cuidar na escola de educação infantil: manual de orientação aos profissionais das escolas de período integral. Prefeitura do Município de Diadema, revisado em 2012.
  11. PREFEITURA DE SÃO PAULO. Manual de boas práticas manual de boas práticas de higiene e de cuidados de higiene e de cuidados com a saúde para com a saúde para centros de educação centros de educação Infantil. COVISA, Prefeitura de São Paulo, 2008.
  12. PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE. Orientações da vigilância sanitária para instituições de educação infantil. ANVISA, Belo Horizonte, 2012.
  13. FUNDAÇÃO MARIA CECÍLIA SOUTO VIDIGAL. Fundamentos do desenvolvimento infantil: da gestação aos 3 anos / [organizador Saul Cypel]. São Paulo: Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, 2011.
  14. Barros, S. Para quem acha que a creche é “SÓ” para trocar fraldas: a intencionalidade educativa em creche. Primeiros Anos PT, 2020. Disponível em: https://primeirosanos.iscte-iul.pt/2020/09/30/para-quem-acha-que-a-creche-e-so-para-trocar-fraldas-a-intencionalidade-educativa-em-creche/